quarta-feira, 29 de julho de 2015
A Conspiração
acréscimo a este blog : comunico o lançamento do meu novo livro "Riqueza e Poder, a geoegologia", pela Quártica editora, em 2018, com uma palestra minha na internet que pode ser acessada pelo título do livro; porém até agora a editora não o colocou nas páginas do site nem nos canais de venda da internet onde constam meus livros antes publicados: "O pós-moderno, poder, linguagem e história"; "Filosofia, Ceticismo, Religião, com um estudo sobre Diógenes Laércio", "contos do espelho" e "contos da musa irada"; /// /// em abril 2019
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DENUNCIE O NEOFASCISMO
MULTINACIONAIS OU CARTEIS: A CONSPIRAÇÃO HISTÓRICA
Autoria de Eliane Colchete [ escritora, pesquisadora independente em ciências humanas e filosofia, autora de vários livros publicados (Quártica editora) e blogs de estudos, de textos ficcionais e de poesias ]
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Este blog foi revisado e atualizado em 03/09/2016.
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Prefácio:
A expressão "conspiração" tem sido usada na teoria do pós-modernismo, como o que seria um tema corrente na ficção pós-moderna, a exemplo do que obseda a personagem de Th. Pynchon em The crying of lot 49.
Como se poderia referenciar do célebre teórico da cibernética, Heinz von Foerster, em entrevista a Pessis Pasternack ("do caos à inteligência artificial, São Paulo, Unesp, 1993, p. 198), "permita-me chamar-lhe scienza vecchia".
Ao invés de "scienza nuova", o que Pasternack havia proposto para designar a ousada teoria da "ordem pelo ruído", de Foerster - a quem, sem compromisso com algumas outras de suas posições, muito admiro pela coragem em denegar com tanta convicção, que computadores sejam inteligentes na acepção de pensantes ou que sequer tenham "memória" ao invés de mera capacidade de armazenagem de números ou programas ("Nunca teremos uma máquina capaz de escrever suas Memórias!"; p. 202).
Foerster recusou o "nuova", aduzindo que algumas das teorias como de Prigogine e H. Atlan, mencionadas como similares às suas, "já tinham sido elaboradas há muito tempo", e quanto à sua própria, festejava em inícios da década de noventa um quarto de século.
Assim também a expressão "conspiração" para designar uma rede de ações concatenadas, sem contudo poder-se apontar a proveniência ou os sujeitos operantes, obtendo ainda efeitos determinados sobre pessoas e fenômenos sociais, não é nova, ainda que tenha sido associada a algo somente relativo ao pós-modernismo.
Este uso da expressão, coincide com o há muito generalizado "complô", mas vem tendo abrangência mais ampla, já explorado na assim designada pós-moderna "teoria da conspiração" que transvazou para a ficção, como hipóteses sobre redes clandestinas operantes na sociedade. Uma revista há alguns anos circulou nas bancas sobre grupos hipotéticos que se creem possivelmente redes de conspiração com alcance mundial, nesse sentido: de egressos do nazismo, de agrupamento racial como "nobreza negra", de famílias como a "dinastia", etc.
Porém bem anteriormente, Kurt Rudolf Mirow, em "A Ditadura dos Carteis, anatomia de um subdesenvolvimento" (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, coleção Retratos do Brasil, v. 102, 1978), utiliza a expressão "grande conspiração" (p. 33) para algo que nada tem a ver com mera suposição, sendo estritamente documentado, a ação de carteis.
A "conspiração" dos carteis ou empresas multinacionais envolve, segundo Mirow, a "divisão do mundo" (p. 15) concertada pelos integrantes de um cartel relativamente a todo setor produtivo, coberto pela sua atividade, em qualquer lugar do planeta. Como Mirow cita da carta de Werner Siemens (da multinacional Siemens, alemã), a um irmão: "Dominaremos assim a indústria elétrica mundial" (p.34).
A consequência imediata do cartel, como seu objetivo precípuo, é a aniquilação fraudulenta de empresas que não integram o cartel, empresas que estão contudo apenas usufruindo da liberdade constitucional e humana de atuar. Imperando sobre o setor produtivo sem concorrentes, o cartel objetiva anular qualquer alternativa à sua política de preços e circulação de mercadorias, política corrupta, configurando dominação sobre a sociedade, abuso de poder econômico.
Este estudo é predominantemente constituído como resenha de Mirow, porém acrescenta referências ao fenômeno do imperialismo, coberto por fontes como Cl. Julien, Dreyfuss, Halberstam e outros.
O leitor especializado neste assunto observará que não tenho conhecimentos aprofundados na área, porém tratei o tema como extensão da história geral e do Brasil, assim como importante a referenciais da sociologia e demais matérias em Ciências Humanas. Considero o tema da maior importância na configuração de qualquer abordagem pertinente às questões de interesse nacional da atualidade, e por isso não me abstive dos riscos no enfrentamento de um assunto alheio às minhas pesquisas habituais. O interesse sendo que as pessoas em geral possam lidar com as informações em nível básico.
Carteis e imperialismo
Há uma consequência ulterior ao crime de cartel, como a que compromete o próprio desenvolvimento histórico de países como o Brasil. Pois os concorrentes que estão na lista negra dos "fundos de combate" dos carteis, o dinheiro destinado a ser usado para eliminação total da firma independente, são as empresas nacionais. Por este segundo ângulo, a conspiração do cartel se torna algo preponderante do ponto de vista histórico, muito mais do que apenas guerras localizados de concorrentes capitalistas que poderiam ser considerados por alguns, no fundo, todos iguais. Essa não é a perspectiva que eu mesma cultivo, considerando que a livre iniciativa é algo legal, dado que os abusos são limitáveis por lei. Em todo caso, vemos que a expropriação internacional sistêmica não tem a mesma consequência do que a evidência do abuso do poder econômico em países desenvolvidos.
Torna-se a conspiração de multinacionais tema sine qua non em se tratando de compreender a situação geopolítica do terceiro mundo pós-colonial. Isto é, quando se trata de apreender a articulação do Imperialismo, especialmente desde a segunda metade do século XX, definido como dominação de capital estrangeiro sobre países assim determinados a serem "subdesenvolvidos".
Por Imperialismo, entende-se vulgarmente a dominação das economias das ex-colônias pelas metrópoles - lembrando que as "colônias" são os países do terceiro mundo como América e a porção afro-asiática; e as "metrópoles" são os países europeus que se apropriaram desses territórios, respectivamente desde os séculos XV e XIX. Mais recentemente, os Estados Unidos se apoderaram dos requisitos do controle do domínio imperialista, antes europeu.
Essa dominação "imperialista", não podendo já ser diretamente política, pelo fato da independência obtida por meio de guerras de descolonização promovidas pelos movimentos de libertação nacionalistas (séc. XIX nas Américas; séc. XX em Ásia e África), se faz por meios de subjugação econômica e social, além de novos meios de intervenção armada como o representado pelas armas nucleares norte-americanas.
Como o domínio sobre as colônias foi feito originalmente por uma população europeia dotada de armas de fogo sobre populações aborígines que não as conheciam, toda a cultura assim como articulação "nacional" foram destruída pelas armas, de modo que a própria organização nacional posterior à invasão colonialista é um amálgama cultural relacionado com o colonizador, interdependente de um jogo armado como "equilíbrio internacional" de "mercado", do qual depende a circulação de mercadorias, alimentos, tecnologia, tratados de coexistência internacionais, etc.
Como estamos ressaltando, a transferência aos Estados Unidos da hegemonia do mundo imperialista após 1945 já não basta para compreendermos os dispositivos efetivos pelos quais a dominação econômica imperialista está sendo feita sobre o terceiro mundo.
Para os quadros dessa mudança, contudo, boa referência é Romanova, expondo a história dos fraudulentos contratos de exportação de capitais à América Latina, além do que os manuais de história ensinam correntemente sobre a capitulação dos negócios e consequentemente das zonas de ingerência europeus aos estadunidenses, constatada logo após as duas guerras.
Superada a fase coberta por Romanova, dos contratos de capitais, a ação dos carteis é desde a metade do século XX até agora, um dos integrantes principais na articulação do capitalismo definido como imperialismo - não o definimos por qualquer outro modo porque, se há certamente as funções próprias às empresas, como cobertas por Bearle e Means por exemplo, não cremos que o montante necessário para dominação em ampla escala dos meios de produção e da sociedade ("reprodução"), seja haurível apenas pela exploração na luta de classes local de qualquer país.
Há certamente relação entre a hegemonia estadunidense e a história da ação de cartel na sua vertente imperialista, mas não no sentido de que esta estaria restrita a empresas norte-americanas.
Com o objetivo de demonstrar a pertinência da definição dos dois aspectos da ação de cartel, como guerra de capitalistas e como imperialismo, podemos notar que não é a mesma coisa o que se segue como reação à ação de cartel quando se trata de empresas do primeiro mundo atingidas, ou quando se trata de uma conjuntura nacional do terceiro mundo.
A Zenith Radio Corporation da Pensilvânia exemplifica a ação de empresas, que pode existir como reação à ação predatória de carteis sobre si. A Zenith processou o cartel japonês do setor Eletrônica de Consumo, no referido estado norte-americano, alegando que estava impedindo seu funcionamento, com objetivo de domínio do mercado.
Várias ações fraudulentas foram levantadas no processo movido pela Zenith: "Fora declarada ilegal, de acordo com a seção 1 de Sherman Act, a participação de corporações americanas em pool de patentes de rádio e televisão cuja finalidade fora impedir o acesso da Zenith e outras a mercados do exterior" (p. 21). Várias referências ao que foi levantado pela Zenith são utilizadas por Mirow. A bibliografia de processos movidos pela polícia na Europa e Estados Unidos, contra ação de carteis, é referencial construtivo do estudo de Mirow. Mas seu estudo cobre também o descalabro da ação de cartéis em âmbito brasileiro, isto é, configurando ação imperialista.
Quanto ao processo da Zenith, especialmente o problema, que atualmente está muito debatido sob a denominação de "reserva do saber" e em Mirow se referencia como "pool de patentes", foi atacado pela promotoria. Trata-se do "monopólio da tecnologia", que segundo Mirow, "sempre constituiu o segredo do sucesso de corporações multinacionais" (p. 20).
A Reserva do Saber, desde os anos oitenta, tem sido argumento contra o secular condicionamento da economia subdesenvolvida ao modelos das potências centrais, sedes de multinacionais. Mostra-se assim que uma vez que a tecnologia não é absorvida pela penetração do capital internacional, mas apenas produtos ou reprodução por montadoras, o desenvolvimento real está restrito aos países sedes das multinacionais, enquanto que por outro lado, recursos voltados apenas para o interesse local não são explorados ou incentivados.
Assim, quando se trata do prejuízo da indústria nacional no terceiro mundo, exemplificando-se com o Brasil, constatam-se, ao invés do interesse na denúncia, obstáculos crescentes à impetração de processos ou à proteção contra o crime, obstáculos representados pelo próprio governo local.
Uma variante das formas desses obstáculos está institucionalizada, desde a ditadura militar instituída em1964, como "leilão de incentivos" à atuação do capital multinacional, e simultâneo conjunto de dificuldades oferecidas à iniciativa do empresariado nacional.
Paralelamente a Mirow, Nelson Werneck Sodré ("Brasil, radiografia de um modelo, Rio de Janeiro, Bertrand, 1987) cobre a política econômica antinacionalista do governo ditatorial recente. Mas como historiador Sodré tem obra mais vasta, cobrindo o imperialismo como estruturante da desigualdade secular no país, como em sua "História da burguesia brasileira", onde se constata que a burguesia local realmente não chegou a se formar, numa trajetória que consiste porém na sua tentativa frustrada pelo capital internacional, isso às vésperas do golpe ditatorial que como o dossiê Dreyfuss cobriu, foi na verdade perpetrado por ação ilegal dos Estados Unidos ("1964: poder e golpe de classe").
Na atualidade a descoberta da corrupção de governo do "partido dos trabalhadores", revelou a cooptação do que foram as esquerdas na ditadura, pelos novos meios dos Estados Unidos e multinacionais "globalizadas" impedirem o desenvolvimento local, com imposição de neofascismo generalizado. Ou seja, agora as próprias assim designadas esquerdas são usadas por sua popularidade, por suborno ou outros meios, para apenas permitirem a ação de abuso econômico das multinacionais, fazendo obstáculo ao desenvolvimento da inteligência, legalidade (privacidade) e idoneidade do empresariado local por fiscalização consequente.
Seria importante, para desfazer a impressão de que o caso brasileiro é anômalo pelo fato de ter tido império oficial, consultar Leon Pommer, ("Paraguai: nossa guerra contra esse soldado") demonstrando a ingerência da Inglaterra na destruição da prosperidade e inclusão social paraguaia, oriunda do protecionismo consciente de Solano Lopes (séc. XIX). A Inglaterra agiu concertadamente a fim de obter domínio sobre a economia paraguaia, o que resultou nos quadros de deformação social espantosa comuns na América Latina como mesmo fenômeno.
Assim como Sodré e o próprio Pommer demonstram a ingerência inglesa na consolidação, contra os autênticos movimentos nacionalistas, do império da dinastia portuguesa no Brasil - como se dizia na Europa, e a essa altura já independente, reduzido a uma "colônia inglesa", de modo que a repressão à indústria local com objetivo de exclusiva importação dos manufaturados ingleses foi completa até Vargas na altura da segunda guerra mundial.
A interpretação de Sodré a propósito do estrangulamento da trajetória da burguesia local após Vargas, foi repetida, pelo que podemos observar, na observação de Franz Fannon relativamente ao problema da noção de burguesia em países dominados pelo capital imperialista, como na África recentemente descolonizada. Os africanos constataram em poucas décadas o que já conhecíamos secularmente, ou seja, que após a independência há cooptação de grupos importantes pelo "imperialismo".
Ao invés de uma verdadeira burguesia nacional, ocorre um tipo de casta cooptada, o contingente que representa, por motivos étnicos ou outros, como testa de ferro local, o domínio imperialista.
Esses grupos tão bem caracterizados por Fannon, poderiam a meu ver ser associados, além de grupos de privilégio, aos "pontos de contato", que protagonizam o "efeito de demonstração" do uso de mercadorias importadas, para os grupos nacionais cuja heterogeneidade cultural não teria de outro modo interesse neles. Esse mecanismo é conhecido como "efeito de demonstração", conforme os termos conhecidos de uma teoria da economia subdesenvolvida alternativa à de Schumpeter como de limitação da economia ao planejamento de governo. O resultado do "efeito de demonstração", ao contrário de desenvolvimento porém, é o desequilíbrio da balança comercial.
Uma teoria alternativa a ambas, e que tem maior atualidade, é a que Parsons sistematizou em termos de equilíbrio variável entre sociedade e economia. Quanto mais independência da sociedade (informação) relativamente à economia (energia), mais desenvolvimento, o contrário configurando subdesenvolvimento.
Ora, podemos unir os aspectos destacados em cada uma dessas teorias, mostrando que quanto mais o "efeito de demonstração" como política de importação de industrializados integra o planejamento do governo, substituindo o que seria a livre iniciativa nacional que ele deveria inversamente facilitar, não só mais dificultado será o caminho da autonomia social. Como ainda pode ocorrer o impossível na ótica do "progressismo" da propaganda da "demonstração", a saber, que haja retrocesso na autonomia social já obtida. É o que constatamos estar ocorrendo aqui, a partir da dominação espantosa da indústria info-midiática, que está reduzindo todos os aspectos da organização social à economia, que porém não é a nossa, mas sim dos produtores multinacionais.
Eu mesma, em blogs e livros criticando a concepção sócio-evolucionista do Ocidente como modelo universal do desenvolvimento para mostrar que o capitalismo é fenômeno da interação predatória de um centro de anexação sobre o terceiro mundo marginalizado/anexado, tenho colocado como fator de articulação a dominação cultural na forma de teorias antropológicas que identificam o "ocidente"/capitalismo europeu com a evolução social, e o terceiro mundo "subdesenvolvido" com o primitivo. A dominação cultural implica na corrência dos dispositivos de "casta" local, pseudo-legitimado como agente do "desenvolvimento".
Considero a teoria da evolução social uma geo-ego-logia que se espraia para todas as ciências humanas inclusive psicologia, havendo uma alter-egologia como condenação do primitivo local a copiar a trajetória ocidental a fim de se desenvolver, recalcando sua heterogeneidade. A expressão que proponho relaciona-se ao fato de que a emergência do capitalismo como suposta racionalidade da produção, é o fator que define na teoria da evolução social a emergência do sujeito privado, com consciência de si e não apenas coletivo, sujeito assim suposto restrito ao mundo desenvolvido. A dominação sobre as universidades de modo a restringirem os curriculuns à importação cultural é uma das variantes históricas dos procedimentos de casta alter-egológicos. Atualmente não está mais válido afirmar porém que em sociedades não-moderno ocidentais as pessoas não tem consciência de si.
Além disso, sendo essa cópia inteiramente inútil porque o imperialismo jamais vai realmente conduzir ao desenvolvimento além do "primeiro mundo". Conclusão que está subjacente à reordenação do mapa planisférico segundo o conflito norte/sul, e ao que poderíamos designar um contexto realmente pós-moderno, como invalidação da geo-ego-logia nas ciências humanas.
René Dreyfuss, em "1964: A conquista do Estado; ação política, poder e golpe de classe" (Petrópolis, RJ, Vozes, 1981), fornece a continuidade na trajetória da "História da burguesia" de Sodré , cobrindo a articulação norte-americana do recente golpe ditatorial dos Estados Unidos no Brasil, com a finalidade de domínio sobre a economia local.
Dreyfuss mostra a ação subversiva antidemocrática da Cia, até o golpe de 1964 e estabilização em 1965, atuando na sociedade brasileira por suborno e articulações similares, desde 1961. Algo convergente com o levantado por Claude Julien, em L'Empire Americain (ed. Bernard Grasset, 1968, col. le livre de poche), relativamente à subversão contra-democrática pela Cia no Irã de Mossadegh e em outros países latino-americanos.
A conexão dessas atividades imperialistas com os carteis é óbvia e notória, na medida em que, como no caso do Irã, são as próprias multinacionais que financiam as operações do serviço secreto do governo, das quais são as beneficiadas. Assim a Aramco, cartel de multinacionais do petróleo, financiou o golpe no Oriente Médio porque Mossadegh, governo representativo por voto democrático, nacionalizara o petróleo contra os interesses da empresa inglesa que lá imperava até então. Esta empresa foi beneficiada com uma porcentagem pela Aramco, após o golpe da Cia, cujo domínio perpetrou localmente até mesmo o governo de um nazista hitlerista (Zahedi), durando até a revolução dos Aiatolás.
Sodré, assim como Mirow, cobrem portanto alguns dos meios pelos quais multinacionais receberam recompensa na intervenção ditatorial norte-americana no Brasil. Toda ideologia golpista, isto é, que informou a mentalidade dos governantes ligados ao partido conservador de direita, o Arena, se resume na expressão "leilão de incentivos" ao capital multinacional. A expressão é de um economista norte-americano, citado por Sodré, crítico porém da situação local que produz, na expressão de Sodré, um "paraíso da fraude internacional"(p. 146).
Tornar-se "a meca do hot-Money e dos especuladores", também para Mirow é o que ocorreu com o Brasil desde a ditadura, porém assinalando que concomitantemente, o industrial brasileiro anulava-se "por falta de recursos"(p. 206), enquanto "de fato, o Brasil importou poupança, mas, também, ociosidade, desemprego e atraso industrial" (p. 204).
Sendo inúmeros "os exemplos de substituição de produtos brasileiros por equipamentos importados" (p. 94), a redução da oferta de emprego seguir-se-ia inexoravelmente. Conforme registrou Mirow, isto não estava ignorado pelos gerentes de multinacionais, mas como explicou um deles ao autor, uma fábrica na Europa pode estar sem serviço, sem provocar fechamento devido a razões sociais, porém no Brasil, uma redução da produção seria "perfeitamente tolerável" porque "podemos atuar junto à censura brasileira para que não haja discussão pública" (p. 95). Como se deve lembrar, um dos itens exigidos das multinacionais do golpe de 64, foi que existisse repressão política violenta, com direito da segurança do Estado a tortura e eliminação de pessoas sem passar por processo jurídico, e censura federal a todas as publicações circulando neste país. O número de vítimas é assim de cálculo dificultado, porém só na Argentina está entre trinta mil a dez mil pessoas.
De fato, as críticas que se apresentaram à política do regime ditatorial norte-americano a propósito de fechamento de contratos de vulto com o exterior, visando reequipamento da siderúrgica brasileira, resultaram na inclusão pelo governo, da discussão sobre bens de capital e dívidas externas nos tópicos submetidos à censura federal, que então atuava ( p. 196).
Está citada em Mirow a carta-protesto do escritor Moniz Bandeira ao PEN-club de Londres, contra a proibição do livro Carteis e desnacionalização. Afirmava a carta-protesto que "essa atitude insólita e abusiva comprova uma vez mais que são as corporações estrangeiras, chamadas multinacionais, as maiores interessadas na censura e na repressão criando autêntico clima de obscurantismo político e cultural no país" (p. 196). Ocorreu que J. Alcides Klein, diretor da Saab Scania, junto a outro alto funcionário da empresa, pediram ao governo brasileiro a proibição do referenciado livro, utilizando-se do prestígio de professores suecos visitantes da empresa.
A coordenação de polpudas verbas publicitárias, "fiéis da balança" da vida econômica dos órgãos de imprensa, por parte das multinacionais, é grande veículo da política de dominação, porém não é o único meio de sua ação visando impedimento da circulação de informações contrárias aos seus interesses. Não apenas relacionadas aos negócios, mas a todo conteúdo da programação, visando veicular apenas notícias que não abalassem a confiança nos resultados econômicos da ação das multinacionais: "Nossos leitores e anunciantes não se interessam por este assunto", afirmou o funcionário de um renomado jornal europeu, instruindo o correspondente latino-americano, a fim de evitar notícias desagradáveis.
Além da censura oficial exigida pelas multinacionais, há provas de interferência lesiva à circulação de periódicos brasileiros que não pautaram sua linha editorial pelas regras das multinacionais. Conforme Mirow, o Council of the América, levou à falência o Correio da Manhã, matutino carioca respeitável, enquanto inversamente, o Jornal do Comércio terminava por aceitar a disciplina imposta pela manipulação da verba publicitária, mudando a linha editorial que até aí havia sido crítica do capital "multinacional". O comitê de informação da Confederação da Indústria Alemã, a BDI, encarregou-se da pressão sobre a comunicação de massas no terceiro mundo, participando dessas operações de censura ou manipulação da opinião pública.
Na Alemanha, ações como a da Casa Siemens, movidas contra publicações de denúncia como o livro de C. Delius ("Laudatio aos 125 anos"), visaram funcionar como censura na impossibilidade de a impor através do próprio regime oficial. A reunião, em fevereiro de 1974, em Rio de Janeiro, do presidente geral da Siemens, Bernhard Plettner, com Hans Joachim Kuhn, a fim de coordenar a contra-informação publicitária, está documentada em Mirow (p. 195). Lembrando que o cartel da Siemens, visando a dominação mundial, foi firmado com a ex-concorrente AEG, em 1883.
A ideologia do "leilão de incentivos" acoplada à simplesmente mentirosa concepção de que é o meio possível do desenvolvimento local, está disseminada ad nausea pela mídia que atualmente substitui por sua ingerência massiva, os anteriores meios de repressão direta ditatoriais, assim como a dominação cultural na universidade está hoje num grau sem precedentes. Ao contrário do que apregoam, como vimos, não se trata em países pós-coloniais dominados, de ser o capital multinacional meio de obter desenvolvimento.
Mirow e Sodré, além das referências bibliográficas que eles mesmos informam, são fontes que demonstram, inversamente, que a atuação do capital multinacional impede o desenvolvimento local. Na proporção mesma pela qual é contrária ao livre jogo do capital nacional que protagonizaria a liquidação das formas de desigualdade tradicional. Ou que institui formas de repressão à produção cultural nacional, de modo que o plano dos costumes apresenta regressões periódicas pavorosas.
Conforme Sodré: " O conteúdo progressista, anti-imperialista e antifeudal da atividade econômica do Estado, no Brasil, foi transformado em seu antípoda", pela ditadura norte-americana (p. 146). De fato, repetindo, a censura oficial da circulação cultural, assim como a exigência da repressão a atividades políticas ou expressão de ideias não-ditatoriais, assim como a repressão política, foi, como Sodré documenta, durante a ditadura exigido pelas multinacionais.
Também Mirow o registra, o que é notório historicamente. As críticas que as medidas contra-nacionalistas das multinacionais provocaram, resultou na meta das "corporações multinacionais a coordenar, em novembro de 1975, ampla campanha de repressão à imprensa brasileira" (p. 196) que não havia até aí se deixado subornar.
Outrossim, na redemocratização desde os anos oitenta, como tenho registrado em blogs e livros, são as mídias e os computadores - monopólio da Microsoft - que estão associadas ao domínio econômico e ideológico do capital multinacional.
Se não há agora departamento de repressão política explícita como havia na ditadura, ocorrem inúmeras formas de alijamento, ofensa, e repressão velada à livre expressão e pensamento. Até mesmo tendo por alvo a simples constatação de cultura letrada, porque a mídia está atuando por meio de "modelos" como pessoas que na cidade seriam representantes ideais de sua ideologia suja, assim o "brilhantismo" - ou a pura normalidade- dos que não são tais modelos os desagrada profundamente, de modo que passam a agredir-nos nas ruas, pelo computador, etc., para induzir a que pareça que temos desvios anormais, porquanto os modelos iletrados, seriam "superiores", os "fortes", como os que estão de acordo com as multinacionais, ao contrário dos que seriam pervertidos por não estarem - de modo que eliminarem tais "pervertidos" não estaria contrário aos desejos da gente "honesta". O que é apregoado por jornalistas, programas de televisão, propaganda, etc., por meio de manipulação pervertida de nomes próprios, aparência física, situações vividas espionadas, etc.
A simplicidade horrenda desse esquema obviamente nazista já não surpreende, após Zahedi. Hoje em dia, associar ao perverso eliminável ocorre até por se taxar alguém de feia, velha, etc. O apartheid etário a nível nazista, está disseminado amplamente no Brasil "Microsoft".
A trajetória que termina por unir tão explicitamente a opção imperialista dos governos autoritários com a penetração predatória midiática, pode ser constatada como resultado previsível a partir da configuração histórica do poder da classe oligárquica estadunidense, coberta nos pormenores por David Halberstam em "The Powers that be" (New York, Dell publishing, 1979). Ações criminosas contra-democráticas desses grupos agindo eles mesmos como o que se pode considerar cartel monopolista midiáticos estão aí documentados. Ali há um nexo constatável da manipulação do dinheiro sobre o partido republicano, porém o partido democrata, como se sabe, é protagonista histórico da ofensiva imperialista no terceiro mundo.
A radicalização dos esquemas de ideologia midiática, paralelamente a repressão por meios informais das alternativas culturais à exposição de mídia, está de acordo com o cenário do neoliberalismo econômico, que desde os anos oitenta tem se alastrado pelo mundo como ideologia da dominação total do capitalismo, anulando as leis constituídas de proteção aos consumidores e cidadania. Assim, meios de repressão ao banditismo dos carteis como as comissões de inquérito e investigação policial, estão hoje, em todo o mundo, neutralizados pelo neoliberalismo econômico que implica alienação do legislativo, como aparato governamental, na economia. Pois mesmo na ditadura, antes do neoliberalismo econômico, comissões pelo legislativo brasileiro e processos foram feitas que documentaram abusos, como registradas em Sodré e Mirow, mecanismos de proteção nacional que hoje não se constatam. Está havendo, sim, processos e impeachment contra a corrupção do governo "pt", porém não atingindo até agora esses processos o descalabro econômico e social que está acontecendo por meios do dinheiro privado, principalmente "multinacional".
O Cade é instituição brasileira governamental de polícia, responsável pela investigação e coibição do abuso de poder econômico. Porém suas atividades são desconhecidas pela maioria da população e o quadro de descalabros frequentes em nível de preços e atendimento que vem se apresentando - especialmente por firmas como oi, claro, intrusão informática, etc. - não sofre qualquer restrição por controle governamental. Também a ABIN (Associação Brasileira de Inteligência) investiga crimes de espionagem e sabotagem industriais, ou fraudes similares, porém não havendo publicações conhecidas do público a propósito das contravenções correlatas ou casos apurados.
A ponto de ter sido tolerado que um presidente da república de país do terceiro mundo, Sadan Hussein, fosse enforcado no território norte-americano, configurando quadro inteiramente fora de toda classificação da modernidade como evolução do direito "civilizado" além da "barbárie". Não só tolerado, mas agindo a partir daí a malta do capitalismo internacional como se investido de alguma legitimação para a barbárie.
Stuart Hall levantou a conexão de dispositivos governamentais de partido associado ao neoliberalismo econômico, como o de Tatcher na Inglaterra, na mídia como na sociedade, contrários à liberdade de expressão para inculcar ideologias retrógradas, neonazistas ou conservantistas.
A demonstração da contradição entre penetração do capital multinacional e desenvolvimento local, em se tratando do terceiro mundo, pode ser feita pelos próprios índices de favelamento, redução da oferta de emprego, aumento da desigualdade, apartheid etário por involução do perfil populacional (diminuição da expectativa de vida), desculturação, desletramento, desnacionalização, etc., na ditadura e em grau maior na atualidade. Esses índices são conhecidos até em manuais de história e geografia de segundo grau, espelhando também situações similares nas demais regiões da América latina.
Em Mirow podem ser colhidas várias amostras de índices, além de constatações como a que se segue: "A indústria de bens de capital, objeto de múltiplos pronunciamentos oficiais, apresentou situação deveras curiosa. O Brasil limitou o seu crescimento, impedindo o desconto de contratos de fabricação, modalidade habitual em outros países". Assim é "como se os próprios órgãos governamentais" que representam a maior porção do mercado nacional, "não merecessem crédito". Daí o absurdo: "quanto mais eficiente era o empresário brasileiro e maior aceitação tinha seu produto, mais rapidamente se aproximava da falência". (p. 212).
A articulação governo títere/multinacionais está firmemente instituída desde a ditadura, e não se alterou na redemocratização, muito menos se pode aventar que por ser algum partido do governo de origem "esquerdista", há qualquer coisa diferente na composição usual. É essa articulação que cria inúmeras distorções em se tratando de empresas estatais, porém já tendo havido a mudança, nos anos noventa, para um regime de propriedade das próprias multinacionais sobre o que antes eram estatais.
O que é compreensível, porque se na ditadura as estatais serviam ao governo para disponibilizar recursos a multinacionais associadas a suas operações, e a montagem delas ocorreu por importação de capitais estrangeiros, como demonstrou Mirow em vários casos, na redemocratização poderia haver maior controle da sociedade sobre a administração dessas empresas se elas continuassem nacionais.
Porém o dinheiro recebido pelas estatais, ainda que "sucateadas", isto é, vendidas a baixíssimo preço, não foi aplicado no desenvolvimento local. Pelo contrário, o pico da crise econômica recente, desde 2012, ocorreu concomitantemente à venda dos aeroportos, e a escalada da crise vem se verificando paralelamente aos "sucateamentos" sucessivos. Atualmente todos os setores estratégicos , como os serviços públicos mais básicos, são de propriedade "multinacional" configurando ocupação territorial do país por recolonização estrangeira. Não considero que tais transações, entre governos títeres e capitalistas internacionais, seja justificável do ponto de vista legal.
Carteis Internacionais = histórico
Agora examinaremos a atividade de cartel internacional, a princípio independente da questão do imperialismo, como pesquisa da origem e escalada de atividades. A seguir, nossa resenha do estudo de Mirow focalizará a intercessão do cartel na ditadura local, resultando na inibição ou dominação de setores produtivos, bem como na repressão oficiosa ao capital e ao empresariado nacionais.
A atividade de cartel por si só pode ser configurada como crime de abuso de poder econômico, mas sendo seus fins predatórios, além de profundamente desonestos do ponto de vista ético por contrário aos direitos humanos dos que lesam, abrangem outros crimes. Estes relacionados a sabotagem direta, como, registrado em Mirow, as avarias detectadas nos turbogeradores dos petroleiros da Fronape brasileira dois anos antes de serem danificadas as bombas de alimentação das caldeiras, em 1965, onde em vez de óleo apareceu como ingrediente areia pura (p. 170). Além do que não está mencionado como possível perseguição de pessoas, além do registrado relativamente a calúnia e difamação.
Fabricantes brasileiros de televisão receberam componentes defeituosos que afetaram o bom nome industrial de suas empresas, como ajunta Mirow nesse trecho. E vários casos relatados de embargo fraudulento no envio de mercadorias de multinacionais, mercadorias das quais depende a fabricação de produtos por indústrias nacionais, ou alta de preços espantosa das referidas mercadorias com o mesmo objetivo de impedir a indústria local de modo a substituí-la pela exploração do setor pelas próprias multinacionais, estão dispersos na cobertura de Mirow. Entre demais ações visando diretamente prejudicar a produção nacional para fins de domínio do mercado e matérias primas brasileiros pelos carteis. Sendo "cartel" e "firma multinacional", sinônimos, segundo ele.
É algo complexo o exame do conteúdo do livro de Mirow num texto especialmente voltado ao tema, uma vez que se compõe de casos sucessivos, sem alternativa interessante à leitura do original, que recomendamos. Um recurso, se o que precisamos porém é tornar o mais público e notório possível o conteúdo das apurações das ações ilegais de carteis multinacionais, integrando-o à nossa consciência histórica, é o exame por setores produtivos.
Vemos que da produção de artigos os mais variados, desde setores da alimentação, indústria têxtil, elétrica, química, de fertilizantes, de metais, papel, concreto, até extração de matérias primas como petróleo e minérios, ou oferta em serviços como transporte rodoviário, todos os setores da economia brasileira estão impregnados e monopolizados por empresas multinacionais famosas. Aqui listamos as mais em evidência na época coberta por Mirow, como Nestlê, Siemens, Phillips, Pirelli, Unilever, Rhodia, Sambra, Betlehem, Basf, General Eletric e Westinghouse, entre aquelas menos conhecidas como a Borregard e Brown Boveri, assim como empresas famosas japonesas como a Toshiba, Hitachi e Mitsubichi. Hoje empresas oriundas dos assim designados tigres asiáticos iriam entrar na lista, como a Sansumg. E principalmente teria que ser equacionado o tipo de penetração multinacional da microinformática.
As ações fraudulentas do capital multinacional abrange, também, os canais pelos quais podem ser impetradas, como cartórios, instituições de governo e representantes empresariais (pseudo)-nacionais. Um estudo sobre a recomposição do capital em território brasileiro na Globalização está assim evidenciado como muito necessário.
O livro de Mirow pode ser tangenciado, pelo que vemos, a partir de alguns dos eventos de que resultaram o domínio de mercado por aquelas já citadas famosas empresas "multinacionais".
a) O Papel dos Estados Unidos e o quadro do pós-guerra internacional : eletricidade e alimentos
1) Quanto à interferência do próprio governo estadunidense, são proeminentes, na cobertura de Mirow, negócios relacionadas a alimentos e setor elétrico.
Relativamente ao Brasil, neste setor de alimentos algo similar quanto ao alcance monopolístico só ocorre a princípio, na penetração da Nestlê.
Na proveniência estadunidense, registra Mirow, por um lado, uma ação de cartel reprimida pelo governo norte-americano, por ser lesiva ao consumidor norte-americano. As empresas processadas pela Federal Trade Comission de Washington foram a Kellog comp., General Mills, General Foods e Quaker Oats, alegando a FTC que "a conspiração do oligopólio custou ao consumidor americano pelo menos 128 milhões anuais tendo as acusadas aumentado sua participação no mercado de 68% em 1940 para 84% em 1950 e 91% em 1970". (p. 153) .
Por outro lado, segundo Mirow, o governo norte-americano associou-se em cartel com o Canadá, o Mercado Comum Europeu e outros países, a fim de firmar acordo internacional na área de alimentos, como o acordo do Trigo, além de "utilizar o trigo como arma política de múltiplas finalidades, fornecendo-o em condições extremamente desvantajosas, em autênticas operações de dumping a países como o Brasil" (p. 155). O dumping (dump= lixo), como se sabe, é procedimento pelo qual empresas exportadoras mantem preços comuns em seus países, mas impõe preços muito baixos naqueles para onde exportam, a fim de eliminar a concorrência local. Mais geralmente, refere-se a qualquer minoração expressiva do preço para fins concorrenciais desleais ("unfair competition").
Assim, Hubert Humprhey, senador e depois presidente dos USA, declarou saber que por esse meio predatório, "povos inteiros se possam tornar dependentes de nossos fornecimentos de alimentos", mas considerando esta uma boa notícia porque "se desejarmos influenciar alguém tornando-o dependente, acredito que não há dependência melhor do que a da alimentação" , na citação de Mirow.
Sendo a dependência do setor alimentício um tópico importante nas atuais conferências internacionais promovidas pelos países do terceiro mundo, é interessante o registro de Mirow sobre ter sido Vargas quem iniciou a importação brasileira do trigo dos Estados Unidos, e a partir de 1955 a importação começando a apresentar uma curva crescente expressiva. E é importante chamar a atenção para os carteis de supermercados nas capitais brasileiras da atualidade, pois o setor está dominado por poucos grupos que monopolizam a oferta e majoram preços - para relatar apenas a ação aparente.
Ainda com relação aos USA, independente da repercussão em esfera governamental, de fato o país foi o pioneiro da associação cartelizada, oriunda do setor elétrico.
O inventor norte-americano da lâmpada elétrica, Thomas Edison, fundou a General Eletric (GE), em associação com o grande banqueiro J.P Morgan. Graças ao financiamento continuado, a GE pôde sustentar uma guerra de preços, utilizando suborno, sabotagem industrial, dumping, de modo que em 1892 a firma já havia obtido o fechamento de todas as suas concorrentes, e por outro lado uma fusão com a Thomson Houston International Electric Co. Dominava então o mercado, exceto pela resistência da Westinghouse, empresa que como vantagem possuía centenas de patentes. Porém já em 1896, o patente pool e divisão de mercado entre GE e Westinghouse foram obtidos, após um interregno de guerra brutal movida pela GE.
Esse domínio do mercado elétrico norte-americano se tornou exemplar, inspirando a Siemens na Alemanha, que em 1911 já estava organizada em pool de patentes e cartel de preços com a AEG, e com a Auergesellshaft que depois foi incorporada totalmente pela AEG. O cartel formou a OSRAM, já em associação em vários países europeus, único produtor de lâmpadas alemão, na informação de Mirow. A GE estadunidense participava com 29% das ações, acordo mantido pelo menos até a publicação de Mirow.
O pool de patentes, com sistema de licenciamentos mútuos (cross-licensing), resulta em "mercados cativos", territórios totalmente submetidos a ação do cartel, implicando porém que os membros do cartel devem respeitar os preços dos produtores nesses mercados, e a limitação do território da ação de cada membro. Além da proteção mútua que garante meios desiguais de participação no mercado relativamente aos concorrentes ou não-membros ("out-siders"), como já ficou claro há um sistema de eliminação da concorrência por meios ilegais, garantido pelo cartel.
Logo, ao contrário do que objetivou a ciência da economia clássica ou a reedição pelo neoliberalismo econômico, não há uma fórmula racional da formação de preços conforme o que seria o sistema autônomo do mercado, mas sim a posição arbitrária dos interesses dos conspiradores dominantes. Como exemplifica a ação da GE. Se o preço regular da lâmpada correspondesse a seis dólares, o cartel poderia subir para oito dólares, porque de qualquer modo já estava anteriormente pagando dois dólares a autoridades para a firma funcionar sem obstáculos, e assim, continuando o mesmo preço do suborno, obtinha com o aumento porém maior lucro.
A expansão do cartel GE/Siemens foi ininterrupta durante a segunda guerra, e, enquanto Alemanha e Inglaterra se defrontavam, empresas destes países, inversamente, estreitavam laços de interesses e acordos secretos que abarcavam decisões tomadas para depois da cessação do conflito. Por indústria elétrica devemos entender agora não só produção de lâmpadas, mas todos os produtos cobertos por patentes das empresas originalmente ligadas a esta, como telefones e radioreceptores, oferta que hoje está muito mais ampliada.
A comissão de descartelização organizada pelos países aliados que venceram a guerra, em 1948, constatou participação da Siemens em mais de 3000 acordos de patentes, e mais de 1000 carteis internacionais. A Siemens não se deteve só por isso. Em 1935, o domínio do mercado norte-americano pela GE e Westinghouse consolidava-se em nível de monopólio, sistemática que passou a protagonistas alternativos como Philips para controle de mercados na Inglaterra, Canadá, Australia e Brasil, conforme demonstrado na ação movida pela Zenith. Na Inglaterra e na França, paralelamente à penetração de carteis internacionais foram criadas associações nacionais para garantir proteção, o que não evitou o domínio da GE norte-americana.
Provas de uma associação internacional que teria sido dissolvida após a guerra, não impedem a afirmação de que carteis de lâmpadas continuaram a existir, e um acordo internacional entre as líderes Philips e Osram resultou em situações como a do Brasil, onde nenhuma concorrência alterava o equilíbrio do mercado entre 50% para a GE, 30% para a Philips, e 20% para Osram e firmas menores como ITT - conforme os dados de Mirow. O que podemos observar na atualidade sugere que a Philips deve ter aumentado consideravelmente sua participação quanto a eletrodomésticos e aparelhos de diversão.
A EAEA, cartel do ramo elétrico para o mercado interno norte-americano, vinculou-se ao INCA, esta exemplo de associação dos anos 30, em que os acordos regulavam minuciosamente as operações das empresas. Todas as consultas de países situados fora da Europa, para fornecimento de material elétrico, devia ser comunicado à secretaria do INCA. As encomendas eram a partir daí divididas entre as firmas, de modo que a licitação da concorrência deixava de ter qualquer valor, porque a vencedora já estava determinada conforme a ordem de sucessão dos pedidos. A vencedora liberava uma importância para auxiliar a ressarcir as despesas das demais associadas com as propostas de fornecimento destinadas à perda certa na licitação.
Após a guerra, como assinalamos, a restauração de associações antigas em novas bases já estava prevista em acordos firmados durante o conflito. Especialmente as empresas japonesas se tornam proeminentes no cenário da cartelização, a partir daí.
Em 1936 o INCA havia cedido lugar à International Electrical Association (IEA), assim como logo depois o EAEA. Após a guerra, o IEA renovou os contratos e comprovou-se atuante, apenas tendo mudado da Inglaterra para a Suíça, a fim de contornar a vigilância do Mercado Comum Europeu. A partir de 1966, empresas japonesas (Toshiba, Hitachi, Mitsubishi), que vinham desde o início participando de ligações comerciais com a GE e Westinghouse mas tendo interrompido associações devido a contratempos de guerra, voltaram a integra-las, agora participando de todas as negociações da IEA.
Como informa Mirow, a IEA, repartindo o mundo, os ramos das indústrias de material elétrico e o valor das empresas que congregava, funcionou atribuindo números a ramos das empresas que foram organizados conforme diferentes seções do cartel. Os nomes das firmas foram substituídos por números (AEG, nº 1, GE nº 5, Siemens, nº8, etc.). Em virtude da legislação antitruste japonesa, as empresas do Japão que participavam da IEA recusaram receber número de inscrição. Em todo caso, foi desse modo que a Usina Ilha Solteira, em Brasil, tornou-se o primeiro negócio, recebendo equipamentos eletromecânicos dos japoneses. Os japoneses tiveram prejuízo, porém, no fornecimento de locomotivas ao Brasil, tendo que pagar multa à Brown Boveri porque devido a incapacidade técnica tiveram que romper o contrato, causando ainda prejuízo ao Brasil por paralisação de vias de transporte São Paulo/Santos.
A Zenith, em seu processo, levantou a questão de quem compensava as empresas quando utilizando-se do procedimento de dumping, nos ramos de eletrônica de consumo e diversão, causando falências de firmas tradicionais. Ficaram sob suspeita principalmente a Siemens, a Philips e a GE.
2) O IEA em Brasil : O IBEMEP, Instituto brasileiro de estudos sobre o desenvolvimento da exportação de material elétrico pesado, foi criado por um acordo especial (special arrangement) de membros da IEA (GE, Siemens, AEG, ASEA, Induselet-Westinghouse, Brown Boveri e Hitachi), instalados no Brasil em 1964, participando contudo uma empresa nacional, a Itel (indústria de transformadores), com uma parcela de 5%, e a benesse em nomear o primeiro presidente do instituto.
O objetivo de autonomizar o mercado local, mesmo relativamente às casas matrizes das empresas fundadoras, na verdade não se comprova, conforme Mirow sendo o verdadeiro objetivo promover as importações brasileiras e assegurar o pleno emprego das fábricas matrizes (p. 58/9). As empresas eram identificadas por letras (A/Itel, B/AEG, E/Asea), etc.
Segundo Mirow, "as medidas predatórias aplicadas contra a indústria nacional tiveram efeitos devastadores". Em doze anos, a participação de empresas nacionais investindo no setor decresceu de 60% para 8,7%. As importações, inversamente, subiram em quatorze anos numa proporção aproximada de 68 milhões para um bilhão e quatrocentos milhões de dólares. Assim a indústria brasileira permaneceu com expressiva capacidade ociosa.
O estudo de Mirow para o setor abrange ainda o cartel de cabos elétricos, o ICDC, de 1931, reestruturado em 1949 e em 1974, o qual realizou o objetivo monopolista de evitar o surgimento de novos países produtores, aumentar consideravelmente o nível dos preços e eliminar concorrentes indesejáveis. Por causa do alto índice dos preços, o governo inglês, constatando que os correios britânicos tinham sido roubados em 25 milhões de libras em dez anos, processou o cartel, e assim também a Pirelli, atuando no setor de pneus, membro do cartel, foi condenada por abuso de poder econômico em Brasil, pelo Cade.
Não obstante, a tentativa do produtor brasileiro se tornar independente no ramo de eletrodomésticos foi barrada pela Philips, que começou a comprar quantidades de geladeiras Consul, vendendo-as como Philips, além de ameaçar o proprietário da Consul a uma falência certa se não concedesse vender-lhe a empresa. A compra de compressores a frio, necessários para a fabricação de geladeiras, passou a ser seriamente dificultada. Mesmo na impossibilidade de obter fornecimento internacional desses compressores, o governo brasileiro vetou a venda da Consul, porém a empresa continuou em dificuldades segundo Mirow - atualmente a situação deve ser pesquisada.
Relativamente ao setor da indústria eletrônica, documenta-se que foi o dumping que causou a decadência da participação nacional, em dez anos, de 70% para 20%. Enquanto a venda dos aparelhos eletrodomésticos subia mais de 15% em 1975, das onze empresas de componentes eletrônicos no país, sete eram filiais de multinacionais. A produção dos componentes porém, diminuiu 25% na mesma época, porque foram transferidas as encomendas do Brasil às fábricas da Alemanha e Japão, garantindo empregos num cenário de recessão. Toda a iniciativa brasileira no setor de eletrônica foi impedida pela ação de cartel (International Components Group de Londres), atuando por chantagem de produtores nacionais ou fornecimento de componentes de fabricação defeituosos.
O cartel de material elétrico atuou no território nacional intensa ofensiva contra a iniciativa local. O objetivo da Nippon Steel, destruir a produção local, denunciada, não foi desmentida na CPI das multinacionais, em Brasília (p. 73). A ação chegou a abranger meios de impedir a nacional Acesita obter kow-how em matéria de produção de chapas silicosas, proibindo a Armco, fornecedora da Nippon, de o fornecer igualmente à Acesita. O litígio prolongou-se em torno da acusação da multinacional contra a opção local de produzir aço silício com laminação a quente, ao invés de a frio conforme requisito que tornaria imprescindível a importação.
Em depoimento à CPI das multinacionais, o presidente da Acesita foi interrogado a propósito da similaridade exigida do produto nacional relativamente ao estrangeiro oferecido a preço de dumping, um dos quesitos sendo esse problema da forma da laminação. A resposta dele foi que não obstante haver pouco mais de qualidade no laminado a frio, a chapa a quente não causava danos, o que poderia ser comprovado pelo fato de que a própria grande detentora do know-how, a Amrco, fabricava chapas com laminação a quente (p. 251).
Mirow demonstra a impropriedade da política brasileira de importação de centrais nucleares alemãs, que entretanto beneficiou a Alemanha, então assediada, como também os USA, pelo cartel de urânio que desde 1972 havia obtido controle de 80% da produção mundial do combustível nuclear requerido para usinas atômicas. O Brasil deveria pagar pelas centrais com urânio, porém ainda não haviam sido descobertas as jazidas, e a compra foi feita sem saber-se como pagar.
Na atualidade, o estudo do setor deve abranger processos de penetração mais vastos, a partir da expansão da indústria informática, configurando dominação cultural a partir da própria indústria, ao invés de por um ramo terciário de mass mídia. A documentação de Mirow é referente a época anterior ao boom da microinformática. Mais à frente espero tornar ao assunto, relacionando ao estado atual de domínio em nível de propriedade privada, dos setores estratégicos e de telecomunicações em Brasil.
Retornando ao setor de alimentos, Mirow observa a ação internacional relativa à soja brasileira, que consiste em aumentar o preço somente após ter-se feito a venda do produto brasileiro a baixo preço no mercado internacional. Tal manipulação de preços se fazia sistematicamente por companhias sediadas nos USA, Panamá, Alemanha, Suíça e Noruega. Bunge e Born (argentina) e Cargil, operando nos USA e Brasil, dominavam a produção de óleo de soja, à época do estudo de Mirow.
Vários carteis assediam a produção de alimentos - ou monopólios, como o da United
Fruits relativamente à produção de bananas na América Central, relegando países como Honduras ou Costa Rica, a estados impressionantes de carência. Contrastando com El Salvador, melhor educado e não assediado pela exploração da banana. Nessa conjuntura objetivou este ocupar os ermos demográficos hondurenhos, provocando conflitos políticos.
A Unilever precede a Nestlê, na apresentação de Mirow da dominação no setor de alimentos. Possui a Unilever semi- monopólio europeu (óleos vegetais, margarinas, porém atualmente inúmeros produtos de perfumaria, limpeza, etc). Gangorra de compras, disposição de fontes de suprimentos, fizeram da Unilever determinante quanto a pobreza ou prosperidade de regiões inteiras em território brasileiro. O Maranhão, na época da publicação do livro de Mirow, estava dependente da indústria extrativa de óleo de babaçu, da Unilever, sendo o óleo ingrediente de margarina, porém substituível.
Recusando a configurar abuso, o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) brasileiro permitiu o domínio do mercado local de cerveja pela Brahma e Antártica.
Quanto à Nestlê, operou inicialmente por compra de todo o leite disponível na região, instalando ainda fábricas-modelo que impediram a partir daí toda a concorrência. O resultado é que mães pobres ficaram vetadas no mercado, devido à elevação de preços e sofisticação dos produtos no setor da alimentação infantil, restringindo a oferta a classes de maior poder aquisitivo. A Nestlê domina praticamente sozinha todo o comércio de leite em pó brasileiro. Obrigação pelo Brasil, de comprar excedentes da produção europeia, constam resultando da atividade de cartel de exportação de produtores de alimentos - constatado pelo Departamento Federal de Berlim.
A Nestlê estabeleceu cartel sobre água mineral em território brasileiro, operando, com o rótulo Minalba, concorrência desleal contra a Lindoia, empresa nacional que atuava no setor. A campanha contra a Lindoia abrangeu publicação de notícias falsas sobre contaminação das águas da firma. A partir da campanha de notícias, a Nestlê aumentou a participação no mercado em 15% num intervalo de poucos meses, continuando a crescer subsequentemente, com o Brasil tendo que pagar royalts por água mineral.
As maiores infrações de leis antitrustes na Europa foram protagonizadas pelos carteis do açúcar, segundo a Comissão de Monopólios citada por Mirow. O Brasil auferiu boa renda com a alta mundial de preços, entre 1973/4, imposta pelo cartel apenas para suprir lacunas na produção europeia, decorrentes de quebras de colheitas. Porém neste setor o usineiro brasileiro estava na época organizado em associações de regulamentação, como o Instituto do Açúcar e do Álcool e cooperativas nacionais, que protegeram
sem grave risco o seu investimento. Esse setor é por conseguinte exemplo excelente da necessidade da proteção do mercado interno e da produção nacional, ao contrário da propaganda mentirosa do "neoliberalismo econômico". A propósito, W. Canno ("a nova des/ordem internacional") mostrou que a União Europeia é na verdade um neoprotecionismo radical, ao invés de ter qualquer veracidade a tese da universalidade do ideário neoliberal.
Com efeito, conforme já demonstra Mirow, a análise da atuação dos carteis prova que países industrializados protegem os seus produtores, utilizando os países subdesenvolvidos, como o Brasil, para fornecedores de emergência ou mercado de escoamento da sua produção, a preços vis, além de permitir atuações predatórias contra a produção local. Assim é importante reiterar que numa perspectiva mais recente, ao contrário do que os defensores dos interesses da penetração total do capital multinacional apregoam a partir do discurso do neoliberalismo econômico, não está havendo uma flexibilização geral das fronteiras, mas, inversamente, blocos econômicos a exemplo da União Europeia foram organizados como um neoprotecionismo que reflete políticas de contenção frente a possíveis avanços das economias dos países "periféricos".
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